segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

SISTEMA DE GESTÃO AMBIENTAL EM INSTITUIÇÕES DE ENSINO

As instituições de ensino assumem por suas características e função o papel e o desafio da organização que deve adotar o pensamento sistêmico. Segundo Senge (2010), o pensamento sistêmico é aquele que integra várias ferramentas buscando a coerência entre a teoria e a prática. De uma maneira mais simplificada, pode-se dizer que o pensamento sistêmico promove o aspecto da organização que aprende.

No coração da organização que aprende encontra-se uma mudança de mentalidade – em vez de nos vermos como algo separado do mundo passamos a nos ver conectados a ele; no lugar de considerar os problemas como causados por algo ou alguém ‘lá fora’, enxergamos como nossas próprias ações criam os problemas pelos quais passamos. Uma organização que aprende é um lugar em que as pessoas descobrem continuamente como criam sua realidade. E como podem mudá-la (SENGE, 2010).

Compreende-se que a ideia da organização que aprende seja a que mais se adeque à realidade das instituições de ensino, que possuem como principal característica o desenvolvimento educacional e a promoção da cidadania aos envolvidos, mas que não as excluem da geração de aspectos ambientais e da necessidade de desenvolver sistemas de gestão ambiental.
De acordo com Tauchen (2006), a missão das Instituições de Ensino Superior são o ensino e a formação dos tomadores de decisão do futuro – ou dos cidadãos mais capacitados para a tomada de decisão. Essas instituições possuem experiência na investigação interdisciplinar e, por serem promotores do conhecimento, acabam assumindo um papel essencial na construção de um projeto de sustentabilidade. (TAUCHEN et al, 2006).

GRÁFICO I- Principais fluxos de um campus universitário
FONTE: Adaptado de Tauchen et al (2006) apud Vendeirinho et al (2003)

Tauchen et al (2006) justifica que existem razões significativas para implantar um SGA numa instituição de ensino superior, entre elas o fato de que as faculdades e universidades podem ser compara­das com pequenos núcleos urbanos, envolvendo diversas atividades de ensino, pesquisa, extensão e atividades re­ferentes à sua operação por meio de bares, restaurantes, alojamentos, centros de conveniência, entre outras facili­dades. Também posiciona a relevância do sistema de gestão baseando-se na infraestrutura das instituições que necessitam de redes de abastecimento de água e energia, saneamento e coleta de águas pluviais além de vias de acesso, geração de resíduos, efluentes líquidos e consumo de recursos naturais.
Atualmente, observa-se um crescimento das ações adotadas pelas instituições de ensino que buscam promover a conscientização ambiental e o controle de seus aspectos ambientais significativos, podendo isso induzir discussões a respeito de práticas sustentáveis.
A discussão sobre a construção da sustentabilidade no tempo presente está vinculada à quantidade de bens ambientais que é extraída da natureza para a satisfação das necessidades das presentes gerações, sem que se inviabilize as gerações futuras. Significa também entender o que são necessidades humanas e como elas podem ser satisfeitas de maneira sustentável. O conceito de necessidade, além de seu conteúdo subjetivo no plano do indivíduo, (...) possui um conteúdo histórico e cultural, e por si não é capaz de descrever um estado fixo, imutável, para todas as sociedades do planeta, e, sobretudo, para as ‘futuras gerações’ (DERANI, 1997, apud QUINTAS, 2004).
De acordo com Quintas (2004) e Jacobi (2003), na área ambiental os temas mais abordados nas instituições educacionais são os relacionados com os resíduos sólidos, recursos hídricos, licenciamento ambiental, desmatamento, queimadas, assentamentos de reforma agrária, agrotóxicos, irrigação, manejo florestal comunitário, captura e tráfico de animais silvestres, construção de agendas 21 locais, unidades de conservação, entre outros. Além disso, os autores afirmam que a variedade de temas em muitas situações, está associada com questões étnicas, religiosas, políticas, e de exclusão social.
Nesse aspecto, Jacobi (2003) destaca as grandes metrópoles e afirma que é necessário romper com o estereótipo de que as responsabilidades urbanas dependem apenas da ação do governo e de que os habitantes são passivos nesse processo de transformação.
Partindo desse pressuposto, e por abordar diversos temas, é necessário trabalhar de forma multidisciplinar, valorizando a diversidade de questões existentes. Isso realça o papel da educação que é extremamente relevante para as mudanças locais e globais no cotidiano, pois normalmente a responsabilidade de capacitar cidadãos é dada para as instituições de ensino por poderem explorar as propriedades do ensino formal e informal, incluindo em seus instrumentos situações reais do mercado de trabalho.
Devido a isso, compreende-se que a implementação do sistema de gestão ambiental pode tornar-se um mecanismo educacional, por garantir em suas características de implantação, o conhecimento das realidades corporativas, ou seja, as etapas de desenvolvimento do sistema de gestão ambiental podem ser instrumentos benéficos para as práticas de ensino, embora se afirme que tal ação não seja simples.
A estrutura dos sistemas de gestão ambiental, em especial aqueles baseados na norma NBR ISO 14001, baseia-se na busca da qualidade ambiental a partir da identificação e controle de aspectos ambientais significativos. Essa proposta de gestão exige uma visão holística, que implica a necessidade de integração entre os setores, diálogo contínuo entre os envolvidos e capacidade de enxergar além da problemática ambiental. Esses aspectos embasam a criação de procedimentos para se verificar os resultados de forma crítica e contínua, buscando sempre sua melhoria. Essa visão, para além das atividades cotidianas, é um dos grandes desafios que o sistema de gestão ambiental proporciona e ajuda a enfrentar.
Sabe-se que a prática da gestão ambiental, pelas suas características próprias, exige que a educação ocupe um lugar central para propiciar o conhecimento e remediação da problemática ambiental. Porém, não se pode deixar de considerar que a educação nesse campo ainda está num processo de consolidação, e há diversos paradigmas a serem esclarecidos no que se refere ao coletivo e ao individual, por exemplo, e esses conflitos humanos podem ou não serem facilitadores da implementação da gestão e da educação ambiental.
As dificuldades de planejamento e operação são elementos que também dificultam que o sistema de gestão ambiental seja um instrumento de educação. Torna-se necessário observar as características de cada instituição de ensino, pois embora existam importantes identidades conceituais entre o sistema de gestão ambiental e a ação educacional, a forma de aplicação deve assumir a realidade de cada instituição e da comunidade do entorno, sua estrutura, sua localização.
Além disso, para que se tenha desdobramento educacional das práticas de gestão ambiental, outras dimensões devem ser enfrentadas no dia a dia operacional como sua integração com as atividades educacionais, visando à formação e transformação dos envolvidos. Essas práticas podem ser desenvolvidas quando se incorpora as problemáticas ambientais das instituições no desenvolvimento das atividades curriculares.
Na prática da educação, o papel do professor é o de facilitador dessas integrações e essa intermediação deve proporcionar aos alunos reflexões a respeito de como as atitudes do cotidiano interferem positivamente ou negativamente na busca da preservação dos recursos naturais; é importante ainda que os alunos discutam como são afetados por esses aspectos e como são contribuintes nesses processos.
Alguns elementos do sistema de gestão ambiental favorecem, por sua natureza, sua utilização como instrumento educacional. São exemplos:
a.      Comitê Sistema de Gestão Ambiental – Pode promover a participação da comunidade, colaboradores, alunos e professores no conhecimento dos aspectos ambientais e as consequências sociais, ambientais e econômicas associadas;
b.      Planejamento de ações e definições de prazo – Promoção de ações interdisciplinares, a prática da educação não teórica, desenvolvimento das habilidades competências, formação profissional, entre outros;
Vale ressaltar que nos processos de implantação de gestão como instrumento educacional sempre deve ser posicionada a relevância dos níveis de dificuldade apresentados por cada instituição e as potencialidades para a execução das tarefas. O desenvolvimento dos projetos (que são específicos para cada problemática ambiental de cada instituição educacional) necessitam ser integradores das diversas áreas de conhecimento (disciplinas, grades curriculares, e/ou cursos técnicos profissionalizantes). Assumido como comprometimento da organização escolar, as responsabilidades devem ser discutidas, colaborativas e inclusivas. Os recursos devem ser administrados de modo que se possa garantir à coordenação a transmissão contínua dos objetivos e metas dessa gestão.
O sistema de gestão ambiental busca a padronização das atividades internas, integrando as pessoas envolvidas no processo, observando que tipo de procedimento pode ser implantado em sua estrutura física, quais as formas de se adequar a legislação, etc. Essas características proporcionam para as instituições de ensino a possibilidade de se criar condições para a participação e planejamento em diferentes segmentos sociais, já que permite o pensamento sistêmico, o envolvimento de todos os atores e a necessidade da prática da disciplina.
A disciplina, na organização de ensino, busca assumir o papel da organização que aprende, comprometendo-se sempre em aprimorar as suas atividades no aprendizado e na conscientização.
Portanto, pode-se afirmar que tanto o sistema de gestão ambiental quanto a educação possuem como aspectos relevantes a necessidade de integração das partes envolvidas, o conhecimento das suas atividades operacionais e as inter-relações, a responsabilidade, o comprometimento, a prática contínua da disciplina, respeito à diversidade individual e cultural entre outros elementos. E seus objetivos consistem em promover a consciência, o conhecimento, o planejamento e implementação de atividades, competência, participação e análise critica.
Através da disciplina também é possível proporcionar o envolvimento e a comunicação entre colaboradores, professores, alunos e comunidade. O sistema de gestão ambiental auxiliar na organização das rotinas administrativas, no desenvolvimento técnico (conhecimento das atividades e sua interação com o meio), e de incorporação dos requisitos legais de maneira prática.
A educação, por si só, possui como característica que se faz semelhante à gestão ambiental o enfoque holístico, democrático, participativo e a avaliação crítica.
A participação da gestão como instrumento de educação pode promover, por essas características similares, a integração de várias competências e a habilidades para a elaboração e execução de projetos. Outro fator relevante é que tanto a educação como a gestão ambiental promovem a reflexão e convidam os atores para a ação. Suas metodologias buscam favorecer o diálogo entre os profissionais e o empreendimento, exercício da cidadania e da cultura democrática.
Ainda mais, as práticas educacionais desenvolvidas pelo sistema de gestão ambiental, proporcionam para os envolvidos o pensamento sistêmico, o desenvolvimento de profissionais e a formação de cidadãos conscientes.
Portanto, o sistema de gestão ambiental, baseado no modelo ISO 14001, apresenta importante potencial educacional, porém para a garantia da eficiência os instrumentos escolhidos para essa integração (gestão e educação), necessitam de um contínuo processo de aprendizado, uma estratégia personalizada de cada instituição educacional, visando à melhoria contínua e ao aperfeiçoamento dos resultados.


 
Talita Oliveira
Consultora, Gestora e Educadora Ambiental


Referencias Bibliográficas
JACOBI, Pedro. Educação Ambiental, Cidadania e Sustentabilidade, Disponível em http://www.scielo.br/pdf/cp/n118/16834.pdf. Acesso em 08 fev. 2011.
QUINTAS José Silva. Educação no processo de gestão ambiental: uma proposta de educação ambiental e transformadora e emancipatória. Cartilha Identidades da Educação Ambiental Brasileira, Edições Ministério do Meio Ambiente, 2004. Disponível em:  http://pt.scribd.com/doc/4958957/Identidades-da-Educacao-Ambiental-Brasileira-livro. Acesso em: 13 fev. 2011.
SENGE, Peter M. A quinta disciplina. 26ª Edição. Editora Best Seller, Rio de Janeiro, 2010.
TACHEN, J. BRANDLI, L. L. A gestão ambiental em instituições de ensino superior: modelo para implantação em campus universitário. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/gp/v13n3/11.pdf. Acesso em: 09 set. 2011.